Na manhã fria e solarenga de Outono, dobram os sinos fúnebres da igreja. A vibração do som no ar abafa a conversa a meia voz, contida, de quem presta a ultima homenagem a alguém que já foi, não é mais, pelo menos no mesmo plano dos demais.
Apesar disto, a vida segue. A vida segue sempre. O rio corre. Penso nisto. Penso no quanto caminho já trilhei, penso onde quero chegar.
O rio, por vezes de caudal tímido, também transborda com as chuvadas impetuosas, repentinas. A água nova que entra no ciclo e que imprime velocidade a este fluxo. Dá medo, olhamos para a margem e pensamos que talvez fosse melhor amarrar o barco a uma árvore e esperar que esta enchente se reduza a um fio cintilante. Até ser novamente seguro.
A mercearia cheira a Outono. A luz circula livre no ar limpo típico do primeiro dia após uma grande chuvada.
“Bom dia D. Maria”
“Bom dia menina! Sabe com quantos pães fiquei hoje? Noventa! Já só tenho isto que aí está.”
Olho para o gavetão do pão, e conto no máximo sete pães. Contando com o que D. Maria escolhe para mim.
Agarro em meia dúzia de pés de coentros.
“Levo isto também D. Maria. Só quero este bocadinho. Se levo o molho inteiro deixo estragar. Quanto é que é?”
“Ora essa, não é nada menina. Paga só o pão.”
“Obrigada!”
“De nada. Até segunda menina” – diz D. Maria enquanto recolhe as moedas.
“Bom fim-de-semana D. Maria” – respondo, recolhendo o troco.
Inspiro profundamente, sentindo o ar fresco da manhã nos pulmões. Sou inundada pelo cheiro dos coentros que trago na mão.
Estas sensações frescas remetem-me novamente para o rio, e abano a cabeça, afastando a vontade de amarrar o barco. Não quero ficar na margem. Quero navegar no centro da corrente, quero ver onde desagua este rio, sei que à frente, está um oceano infinito de possibilidades. Sei que pelo caminho vou encontrar cascatas, umas modestas, e outras assustadoras, e quero passar por tudo isso, porque é o que preciso de fazer para alcançar o mar aberto. A cada queda de água ultrapassada, reparo o barco. Recruto tripulação para navegar comigo. Arranjamos um barco maior. Criamos as condições para continuar a navegar, cada vez mais depressa, cada vez melhor preparados.
Penso na cena que presenciei momentos antes, ao entrar na vila.
A vida é uma viagem que só termina no nosso último suspiro. Quero passar a minha navegando o rio que me levará ao oceano, recolhendo pessoas nas margens.
