amizade improvável

num qualquer dia de verão, numa qualquer vila à beira da água, um pombo, de nome pintas, dorme uma sesta tranquila na sua casota alta, à entrada da barraca de pesca do sr. antónio. não tem o hábito de dormir nestas condições, mas o antónio está por perto, e com este calor, é o melhor que pode fazer.

nem 10 minutos tinham passado desde que fechou os olhos, quando sente um ruido leve: veludo roçando na sua casota? diz para si mesmo: “que bom, vai-se levantar vento. perfeito para fazer uns voos rasantes às barracas mais logo, e catar alguma migalhinha de pão ou mesmo uns bagos de arroz… com um pouco de sorte até uma peça de fruta abandonada”. com este pensamento, volta a fechar os olhos, satisfeito, para os abrir logo em seguida, ao sentir o mesmo som, desta vez acompanhado pelo tremer da sua casota. em sobressalto, a primeira coisa que vê é um par de olhos verdes penetrantes, fixos nele, bigodes tesos, e uma pata com almofadas de veludo, das quais se lançam garras ameaçadoras.

aflito, sem ter visão para fora da casota, já que a porta, sua única rota de saída, está agora bloqueada por um gato esfomeado, só pode esperar que o sr. antónio se dê conta do que se passa, ou que um milagre aconteça.

é neste mesmo instante que ouve um ladrar nervoso, forte, e o felino, assustado, eriça os pelos do dorso, e em menos de um segundo desaparece pelo telhado da barraca acima.

pintas paralisado para qualquer movimento consciente, treme incontrolavelmente de nervoso miudinho.

volta a ouvir um cão a ladrar, como que chamando por ele. “podes sair, é seguro”.

ao pôr a cabeça para fora da casota, pintas vê sombra em baixo, abanando o rabo, olhando para cima, na sua direcção.

reconhece-o.

sombra é novo na vila. chegou com a sua humana, que se mudou para cá há uns meses. é um cão nervoso, mas parece ser uma boa alma. já lhe tinha tirado, mais ou menos, o retrato.

pintas não sabe, mas sombra já foi arranhado gravemente por gatos em mais de uma ocasião. um dos ataques só não o deixou cego de um olho por pouco, e sombra tem uma pálpebra descaída por conta desse ataque. ao presenciar, em primeira mão, um ataque de um gato a uma criatura indefesa, teve que reagir.

pintas, ao longo destes meses em que sombra vive na vila, testemunhou a dificuldade que o cão tem em fazer novos amigos. o cão é muito desconfiado, muito nervoso, teve um início de vida infeliz e é preciso paciência para o conquistar, principalmente quando se tratam de seres com quem sombra já possa ter tido alguma experiência menos feliz.

pintas é um pombo! não há de nada mal, à excepção de uma bicadinha ou outra, que possa fazer a sombra, que por sua vez sabe disso!

o pombo, apesar de nunca se ter sentido particularmente ameaçado, excepto nesta ocasião específica, faz uma proposta a sombra: tendo em atenção a força bruta do cão, e o impacto que causa nas potenciais ameaças, que por vezes de ameaça nada têm (apenas desconfiança do cão), o que é que ele acha de fazer uma parceria com ele, em que pintas, com a sua capacidade de observar do alto, e por isso muito mais abrangente, passa informação ao sombra sobre potenciais perigos que se aproximam – alertando o cão para estar atento apenas aos que realmente possam ser uma ameaça. assim, sombra fica bastante mais relaxado, para se poder integrar na sua nova terra, sem achar que toda o novo ser que conhece é um agressor, e pintas ganha um guarda costas.

fechado! selam o acordo com um ritual estranho! pintas desce rasante da sua casota, aterra no lombo do cão e daí saltando para o chão, para logo em seguida ser percorrido da cabeça à cauda por uma lambidela do sombra. que bom que é encontrar novos amigos que nos ajudem a trabalhar os nossos pontos menos fortes!

aliás, o momento é oportuno! aproxima-se aquela altura do ano em há arraial nas barracas! é a semana toda em festa e a oportunidade perfeita para testar o funcionamento da dupla. se sombra se conseguir comportar com a ajuda de pintas, vai-se conseguir aproximar das pessoas sem medo, e de certeza que se vai fartar de comer guloseimas, e fazer novos amigos.

sombra é um cão guloso! muito mais guloso que medroso e nervoso, e acha que vale a pena testar a teoria de pintas!

chegado o dia da festa na barraca do padrinho, o ar enche-se do delicioso cheiro de comida na grelha: sardinhas, entremeada, secretos, entrecosto… hmmm… assim que sombra sente este cheiro entrar pela janela do carro dentro do qual se aproxima do local das festividades, o seu coração acelera, e um fio de baba escorre pela falha que tem num dente, resultante de uma outra história.

o carro pára e o nível de ansiedade do cão aumenta. salta do carro excitado com toda esta loucura de cheiros, mal deixando a sua humana pôr-lhe a trela. ladra, e põe mais tensão na trela, enquanto a sua humana lhe pede que tenha calma. pintas sai da sua casota, faz sinal ao sombra que o viu, e parte para o primeiro voo de reconhecimento por cima das barracas, vendo todo o cais e quem se aproxima a mais de 500m de distância. faz sinal ao sombra de que tudo está bem, e de que nenhuma ameaça se aproxima. de agora em diante, com o sombra presente, pintas fará estes vôos regularmente para que quando alguma pessoa nova, ou animal se aproximar de sombra, ou de pintas, o cão já saberá se deverá ou não considerá-la uma ameaça.

a humana de sombra, percebendo que o cão está mais tranquilo que o normal, decide aproximar-se da mesa onde já estão os habituais participantes destas patuscadas, tendo o cuidado de não se aproximar muito do sr zé. (o sr zé, e com razão, não gosta muito de sombra. logo na primeira vez que esteve com o cão, teve o azar de o surpreender pelos quartos traseiros, e o sombra virou-se a ele, ficando-lhe com o fundo das calças entre os dentes, mas isto, tal como o início da vida do cão, e a falha do dente, também  é outra história.)

que grande festarola! sombra, bem tranquilo, vai-se aproximando de todos aqueles a quem ladra habitualmente, só que de língua de fora, rosada, baba escorrendo em fio para o chão, com um ar apatetado. chegando à frente de cada um senta-se, nervoso, cauda abanando deslizando pelo chão. a sua humana não percebe o que se passa, mas fica feliz por ver o seu cão tão tranquilo e amistoso.

as guloseimas vão-se seguindo… coiratos de entremeada, pedacinhos de secretos, ossos de entrecosto… hmm, que delicia! todos elogiam o comportamento exemplar de sombra, e nem reparam que de cada vez que pintas se aproxima da sua casota, regressando de um voo, passa muito próximo de sombra arrulhando de forma meiga, como que passando informação para o cão.

sem darem conta, sombra e a sua humana vão-se aproximando do sr. zé, alheio a esta movimentação, completamente focado no seu prato de sardinhas, quase caindo da cadeira, quando, ao levantar a cabeça do prato, vê sombra à sua frente. mas em vez de ver o cão ameaçador, de dorso eriçado, ladrar bruto e postura de ataque, de trela tensa, vê um sombra diferente. vê um sombra sentado calmamente, olhando quase que pedindo perdão, e transferindo o peso do corpo alternadamente entre as patas dianteiras.

a sua humana não quer deixá-lo aproximar-se mais do sr zé, mas este faz-lhe sinal de que está tudo bem, pois também ele percebeu que o cão está diferente, e sombra aproxima-se do sr zé, apoia-lhe o focinho na coxa dobrada na cadeira, e abana a cauda alegremente.

“então rapaz”, diz o sr zé, “vens-me pedir desculpa? ou vens dar-me mais uma dentada? e se eu te desse antes uma sardinha em vez de me dares uma dentada?” o cão, como que entendendo o que ele diz, engole em seco e ajeita-se, preparando-se para o delicioso manjar que aí vem…

o sr. zé, agarrando uma sardinha inteira pelo rabo, vai aproximando lentamente a sardinha do focinho do sombra, que se vai controlando, cada vez mais irrequieto nas patas traseiras… até que, não aguentando mais, se lança em voo para cima do sr. zé, arranca-lhe a sardinha da mão, engolindo-a de um trago, e em seguida atira-se ao rosto do sr zé, lambendo-o visivelmente agradecido, cobrindo-o com o seu bafo de sardinha. zé ri satisfeito!

“tu não és um mau rapaz pois não canito? já percebi que és um pouco nervoso, e desconfiado, mas se tiver paciência contigo, tu também tens comigo. não é?”

sombra, como que entendendo as palavras do sr. zé, assente com um suspiro longo, e lambe logo em seguida os beiços, preparando-se para a próxima sardinha.

por cima deles, pintas assiste a tudo, e fica feliz pelo seu salvador. afinal, bons amigos são raros, e quando encontramos um a sério, devemos zelar pela sua felicidade! por vezes uma atitude agressiva esconde apenas uma ferida, que necessita de tempo e de um porto seguro para sarar.

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