sacrifício

O cão leva-me calçada abaixo pela trela. Sigo-o pacientemente, ao seu ritmo, parando com ele em cada poste eléctrico, cada esquina, cada árvore, deixando-o cheirar sofregamente todo e qualquer fragmento de odor deixado para trás. 

– “É assim que ele vê o Mundo.”, digo para mim mesma. 

– “O que pensará ele?”

Estamos a chegar ao parque. O ar da manhã é fresco, mas o calor do sol que já se sente na pele, e o verde da vegetação gritam aos quatro ventos a chegada da Primavera.

Aproximamo-nos de um cruzamento frenético, em pleno coração da cidade. Dou um toque ao cão. A partir deste momento, sou eu quem está no controlo. Estes cruzamentos movimentados são sempre um desafio. O cão fica mais excitado na aproximação a eles. O estímulo é muito intenso, e acalma-se quando eu assumo o controlo. Ele levanta a cabeça para mim e dá-me um sinal de assentimento, língua pendurada, côr de rosa, olhar meigo e profundo, quase sorrindo.

Olho em frente e tomo o pulso ao trânsito. Varrendo o espaço com o olhar, deparo-me com uma cena saída de um cenário completamente alternativo ao presente.

Atravessando a estrada, passo apressado e hesitante, um homem novo, pele de ébano, reluzente, uma força da natureza. Vestido de preto, boina estilo militar, mochila às costas, leva na mão a extremidade de uma corda. A outra extremidade, amarrada aos chifres de uma cabra. 

Só posso estar a sonhar, e em vez de me dar um beliscão, digo, a meia voz, à minha mãe, que segue comigo: 

– “Olha ali mãe! Olha para aqueles dois!”

– “Ah…coitadinha… ”, responde a minha mãe, genuinamente preocupada com a possibilidade de um destino infeliz para o pobre animal.

Fico a pensar nisto, é verdade que amanhã é Domingo de Páscoa, mas eu prefiro tecer uma narrativa mais solarenga, tal como o dia, para completar o fragmento do filme ao qual acabei de assistir.

Construo na minha mente os mais variados cenários. Sei que as possibilidades são infinitas, e qualquer uma que trace ficará bastante aquém da realidade. Estou consciente disso. A minha análise será sempre condicionada pelo meu conhecimento limitado do mundo, e pela ilimitada capacidade da minha imaginação. No entanto, a imagem marcou-me de tal forma, que peço à minha mãe que segure na trela do cão, e assuma o comando, enquanto eu procuro um bloco para anotar, em traços gerais, a cena à qual acabámos de assistir, para me debruçar sobre ela mais tarde.

Passo de condutora a seguidora, bloco na mão, tomando notas, alternando o olhar entre o papel, o trânsito, e a minha mãe com o cão pela trela. 

Já do outro lado da rua, à entrada do parque, continuo com o bloco na mão. Estou fisicamente presente mas a minha consciência está longe, muito longe, no espaço e no tempo.

Uma pancada forte na canela traz-me de volta à realidade. Deixo cair por terra o bloco e a caneta. Com os olhos marejados de lágrimas, agarrada à canela que lateja de dôr, sorrio com satisfação e com uma incrível gratidão dentro de mim, por me continuar a deixar surpreender com estes pequenos episódios da vida.

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