sábado de mercado

Buzinam os carros, fregueses acotovelam-se nos passeios – sacas, saquinhos, cestas e aromas a reboque. É dia de mercado.

Pedala ligeiro, silencioso, imune ao caos do tráfego.

No passeio, passo apressado, segue leal, alvo fixo, por entre as pernas dos fregueses, como se estas se dissipassem à sua aproximação.

A cana de pesca e demais instrumentos denunciam os momentos anteriores ao início desta dança, dividida entre o alcatrão da estrada e as pedras da calçada.

Muda de direcção, ajusta a velocidade, o seu deslizar é fluído, contínuo, sem falhas, talvez motivado pela pressa de chegar a casa – afinal, a hora do almoço está próxima.

Na calçada, espelhando os movimentos do companheiro, segue constante, firme, qual marinheiro guiado pela luz do farol no breu da noite sem lua.

O laço que os une é grande.

Talvez só se tenham um ao outro, talvez a restante família os aguarde em casa, de abraço pronto a acolhê-los. E talvez um telefonema, anunciando o aproximar da hora do almoço, ansioso com o retorno desta dupla, tenha dado o mote para este bailado entre 2 rodas e 4 patas.

A poesia está nas pequenas coisas. Basta olhar com olhos de ver.

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