Faz já duas semanas que Olaf deixou a cidade de Gdansk, na costa báltica da Polónia, com uma carga de componentes navais para um estaleiro em Roterdão.
Desde que entregou essa primeira carga que o levou à Holanda, circula de armazém em armazém, acumulando horas de trabalho, muitas delas solitárias, ao volante do seu camião.
Olaf não fala holandês, e o seu inglês… Digamos apenas que o seu inglês dá para o básico.
Felizmente a tecnologia ajuda a diminuir a distância que o separa da sua família, mas não resolve a solidão.
Os únicos momentos em que consegue realmente interagir com outro ser humano é quando, nestas andanças, encontra alguém do seu país e com um pouco de sorte, com tanta ou mais vontade de comunicar que Olaf!
Nessas ocasiões, de verdadeira troca de humanidade, por breves momentos esquece-se de não ir a casa há tanto tempo. Mas faz já 3 dias que não se cruza com ninguém com quem consiga sentir-se humano.
Novamente a caminho de Roterdão, desta vez com uma carga de flores para uma central logística nessa zona, e ainda sem saber se a carga que o espera após completar o serviço em mãos, será a que finalmente o leva de regresso a casa, Olaf segue no trânsito compacto da autoestrada, perdido nos seus pensamentos, na sua melancolia, na sua solidão.
Ao olhar pelo retrovisor, repara que uma mulher o observa directamente, olhando o seu reflexo no retrovisor do camião. Ele, assustado – não estava à espera disto – devia o olhar, e quando volta a olhar, mais recomposto, a mulher ainda o fita directamente.
Ela sorri-lhe.
Ele sorri de volta, com a cara toda, com os olhos, com toda a sua humanidade. E pisca-lhe o olho.
