O telefone toca no seu almoço de feriado. Ele fica surpreendido com a proveniência, mas entusiasmado. Grande vitória, para ele. Há muito tempo que são escassas as comunicações entre os dois.
Ela, enérgica como sempre, trata-o por “velhinho” e pergunta-lhe como vai a vida. Quer saber se o seu silêncio de deve ao sanitariamente imposto “Distanciamento Social”.
Ele deixa escapar um riso maldoso. Tem a certeza de que ela o ouviu, apesar do ruído de fundo da sua festa: um evento com evidente ausência de respeito pelas normas sanitárias impostas pela OMS.
Nem um segundo se passa e já ela o despacha com a rapidez do costume. Ele visualiza-a encolhendo os ombros enquanto ela lhe diz, displicente: “Ok, tá-se bem”… Resignando-se na hora, sem dramas. Afinal, de cada vez que ele murmurava que se tinha que afastar dela, crescia nela a certeza de que aquele fogo intenso ia consumir todo o oxigénio rapidamente. Ele em equilíbrio com a sua vida, ela em puro momentum ascensional… Muito diferentes. Estava mais do que preparada para isso. Após desligar o telefone, ele recorda deliciado, olhos fechados, imagens, sensações e aromas das noites passadas juntos.
Mas no dia da independência, o seu feriado preferido, do outro lado do oceano, já um outro mar inteiro os separa.
Já estão longe demais para se voltarem a abraçar, a beijar, longe demais para se voltarem a entregar um ao outro com a fome de uma ressaca física.
Ele não imagina, que no outro lado desse mar, na outra costa, assim que desliga o telefone, ela regressa à conversa animada que mantinha há já uma boa hora, com um sujeito que conhece nessa noite.
Ele não sabe, que nessa mesma noite, no dia da Independência, ela já sentiu o seu coração bater mais forte por mais do que uma vez, à medida que ia se torna inegável a afinidade física, química e intelectual com esse sujeito.
Ele não imagina que ela sente falta do seu abraço, do seu cheiro, da sua pele, mas hei! Ela já se libertou. Há muito. E estende o peito à bala, e permite-se voltar a abrir à possibilidade de ser abraçada por uma outra pessoa. Mas desta vez, por uma pessoa que a faz tremer de medo que o seu peito exploda em milhares de faíscas coloridas, qual fogo-de-artifício do seu dia preferido do ano.
Ele não imagina que o feriado… Afinal é do lado de cá.
