a arte de marear

Graça teve uma semana em cheio, no trabalho. Prepara-se para duas semanas de férias.

Nos primeiros dias faz contactos, trabalha nos seus projectos pessoais, cria, com inspiração e dedicação, e mais importante ainda, com produtividade. Desliza numa onda gigante, com o vento à popa. Sem esforço! Tudo flui! Satisfeita consigo mesma, faz planos para o dia seguinte. ”Estas férias vão ser a bombar” – pensa satisfeita e entusiasmada com o que planeou. 

No dia seguinte acorda, sem grande vontade de se levantar da cama, mas obriga-se a sair dela. Afinal, tem muita coisa preparada para aquele dia. Primeiro contratempo: tem uma mensagem, de uma hora já avançada, do seu acompanhante para essa manhã, com quem tinha tentado contactar várias vezes na noite anterior. Pedia que lhe ligasse. Assim fez. Uma, duas tentativas… nada. “Esquece Graça”, pensa, “Já devias saber, com ele é sempre uma lotaria.”

Já não tinha grande vontade de se levantar da cama, mas afinal, tinha um dia preparado pela frente. A primeira metade tinha ficado subitamente livre, mas afinal, haviam coisas para fazer, e o seu humor não ia levá-la a melhor. “Deixar-me abater por este contratempo, vai ditar o meu humor dos próximos dias”, pensa.

Já aprendeu que estas coisas são cíclicas. Já se conhece bem, e respeita os seus momentos. Será dia de aviar recados. Manter a cabeça ocupada e chegar ao fim do dia sem sentir que desperdiçou um dia de vida. Isso faz toda a diferença entre meter mais água a bordo ou pôr a bomba de fundo a tirar água do porão.

Não é fácil, mas este autoconhecimento que hoje em dia possui foi desenvolvido ao longo da sua vida, recolhendo experiências, e através da sua análise, detectou um padrão. Sabe exactamente o que o despoleta, e é cíclico, tal e qual o sol e levanta e se põe todos os dias, é certo. Nunca falha.

De cada vez que sente uma tempestade destas a aproximar-se, faz como um velejador. Prepara o barco para o embate com a tormenta. Reduz a área de vela, fecha as escotilhas. Ao sentir o aproximar de uma tempestade, há todo um protocolo a seguir. E tem que ser seguido religiosamente, caso contrário a tempestade poderá danificar o barco de forma irreparável, e pôr em risco a vida da tripulação. Tal como um bom marinheiro, Graça já se prepara de cada vez que avista uma tormenta no horizonte: recolhe os objectos soltos, coloca o arnês com a linha de vida. Sabe o que aí vem, mas sabe que está preparada, a nau é forte, e ela é boa marinheira.

Ana Brochado

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