Por uma janela saem estantes, camas, comodas. Tudo envolvido em filme plástico apertadinho, como um livro novinho em folha.
Em baixo, na rua, aguarda a carrinha das mudanças. Uma equipa de 3 moços despachados dando conta de móveis e caixotes.
Não sei quantos anos de vida serão transportados nesta carrinha, quantas memórias felizes, quantas dolorosas.
Observo de longe a rampa que sobe vazia. Observo de longe a rampa que desce, carregando fragmentos da vida de alguém, que são transferidos por braços fortes, jovens e alheios. Talvez esteja a ser injusta, talvez os braços jovens e fortes não sejam totalmente alheios ao significado do trabalho que desempenham. Serão eles sensíveis? Uma vida inteira resumida a uma carrinha de tralha. Há quantos anos terão os proprietários estes objectos? Quantas memórias vivem nos mesmos?
Damos demasiado valor aos objectos. O tempo segue em frente e nunca volta atrás, e os objectos, que condensam neles instantes, são como uma máquina do tempo, através dos quais regressamos ao passado.
São pequenas âncoras que deixamos presas no passado, que nos recordam o percurso que já fizemos.
O que aconteceria se cortássemos essas amarras? Será que nos esqueceríamos de quem somos, ou será que, pelo contrário, levaríamos para o futuro connosco, aquilo que realmente é nosso? Sem necessidade de uma âncora para nos recordarmos?
Somos as nossas memórias, e importa escolher bem o que queremos carregar connosco.
Se precisamos de uma recordação física para nos lembrarmos de algo, talvez esse algo não seja assim tão importante.
