Artur é uma daquelas crianças que carrega em si o peso de uma vida inteira. Não é um miúdo como os outros. Tem perfeita consciência do poder avassalador das pancadas que a vida por vezes descarrega em nós e apesar desta consciência, e precisamente por tê-la, é que a sua ingenuidade, a sua pureza, maduras, são especialmente comoventes e tocantes.
Artur sonha, como qualquer miúdo. Gosta de fazer coisas de miúdos. Gosta de ir à pesca.
É frequente vê-lo passar na vila, sozinho, a caminho do cais, mochila às costas, cana ao ombro e balde na mão, para aí passar horas a fio a pescar. Por vezes sozinho, por vezes com alguns putos da mesma idade.
Quem observa de fora, percebe que quando está com os amigos, não se sente completamente à vontade. Quer ser um miúdo igual aos outros, mas a sua maturidade, a sua experiência de vida deixam-no a anos-luz das outras crianças da sua idade.
Mas de vez em quando, por breves instantes, naqueles momentos em que pesca com os outros, apesar da sua dificuldade, é visível nos seus olhos o sentimento de pertença. Quando faz directos nas redes sociais, é um miúdo como os outros. Estes instantes revelam a criança em si, que tenta resistir.
Não há ninguém na vila que não conheça a história do Artur. Até eu, que sou de fora, já conheço por alto a sua história, sem grandes detalhes, mas conheço o suficiente para respeitar a sua experiência de vida. Para temer pelo seu futuro. Artur é diferente. Não é só pela sua experiência de vida. Mas porque é claro para mim que é uma alma velha. Daquelas almas conectadas com o inconsciente colectivo. Que bebe da alma comum. Que se comove com as pequenas coisas. E que carrega o peso de toda a humanidade. Se calhar sou eu a imaginar coisas, mas acredito que é isso que vejo nos seus olhos. Que é um ser humano singular.
É Domingo à tarde. Artur está no café com a mãe, mas conhece todos os que estão nas restantes mesas.
O Óscar da Lídia mete conversa com ele. Viu-o à pesca nessa manhã. Pergunta-lhe se apanhou alguma coisa.
Artur, tímido, abana a cabeça, em sinal de negação.
“Estás a pescar com a tança que te preparei? É que agora só andam robalos na ria. É predador. Tens que usar uma linha mais leve, como a que te preparei.
Amanhã de manhã temos a maré perfeita. Vamos apanhar uns robalos? Aqui no cais em frente?”
Artur olha para a mãe, que autoriza com um ligeiro inclinar de cabeça, e olha de volta para Óscar, os olhos brilhantes de entusiasmo, pernas nervosas na cadeira, e diz que sim!
Óscar sorri e despede-se dos amigos. Tem que ir buscar pão para o snack-bar.
“Até amanhã. Artur, não te esqueças do carreto com a tança.”
