Dormem as criaturas diurnas. Lá fora, no mato, as nocturnas reinam e fazem-se ouvir.
São já meses de insónia e só o álcool ou os fármacos conseguem silenciar a minha mente, fazendo com que ela se entregue à doce inconsciência do sono profundo.
Há quem diga que dormir é um desperdício de tempo. Após meses de insónia, começo a pensar que quem diz tal coisa tem o seu quê de razão.
Na insónia vivo, revivo, projecto o futuro, e cruzo estas linhas temporais numa só. Em vez de linear, o tempo enreda-se, enrola-se como se de um novelo se tratasse. No cruzamento dessas linhas, às vezes em mais do que um ponto; abrem-se as portas da mente para níveis de consciência bem diversos dos habituais.
A insónia é o mundo dos sonhos.
Nesse mundo, as realidades cruzam-se, revejo velhos amigos, revivo situações, dou-me segundas oportunidades, perdoo-me. Rio, choro, vivo aventuras, reencontro pessoas que a vida me levou para sempre. E reencontro-me a mim mesma. Despida de ego. Neste estado semiconsciente, a capacidade de autoanálise é máxima. Revelações acontecem.
Silêncio. Shhhh… Ouvem isto? Silêncio da noite, silêncio que ensurdece por deixar ouvir tão bem tudo o que grita lá fora no mato e tudo o que o ruído do dia abafa dentro de mim.
Não! Já não luto contra a insónia.
Ela é um guia precioso que traz na mão o mapa da minha alma.
