O RAPAZ DA SCOOTER
Pensa nela, parece que voa. Fecha os olhos por instantes, e sente o cheiro dela, o calor da sua pele. Claramente não está neste mundo, a imaginação viaja pelas memórias do passado e desejos futuros.
Parece que se passaram eras, vidas e gerações inteiras desde a última vez que se viram.
FOOOOOONNNN…. buzina um carro que lhe faz uma razia… FIIIIIIIIII… chiam os travões de um autocarro, evitando a custo a colisão.
Ele não está neste mundo.
Montado na scooter vermelha, voa através dos tempos e memórias sobrepostos na geografia do presente.
Óculos de sol e boina, é tão ágil, mesmo estando tão ausente, que só os olhos mais atentos dão conta da falta do capacete.
“Para onde vou mesmo?!” -Pensa, ao evitar uma colisão com um peão na avenida. TINO-NI-NO-NIIII, passa por si a VMER a caminho do hospital, e a sirene trá-lo de volta à realidade.
Segue pelo trânsito. É sábado à tarde e já avista ao longe a rotunda que marca o final da estrada nacional 2. Está cheia de gente, motards na sua maioria – agora está na moda. Entre os cromados das motos, distingue ao longe silhuetas humanas interagindo entre si. Troca afável de palavras, de gente que se entende, gente que sabe ter algo em comum, gente que se sente família, apesar de se terem conhecido há instantes apenas.
Entrando na rotunda, isola uma silhueta em particular. “É ela” – pensa. “É ela, é ela!!! Ela está ali!!!! – Fica tão perturbado que sai da rotunda em contramão. Ela olha na sua direcção e apercebe-se do engano. Sob o seu olhar atento, ele suspira, mão no peito, aflito com a distracção. “Foi por pouco” – pensa.
Ele inverte a marcha, despachado, face rubra. “É ela. É ela. Isto é surreal!”
Coração na boca, emoção à flôr da pele, memórias pictóricas e sensoriais sobrecarregam-no. “É ela”
Ela sorri para dentro. Assistiu à cena toda. Também o reconheceu. Segue-o com o olhar, enquanto ele contorna a rotunda, segunda tentativa, olhar fixo nela, bochechas encarnadas.
Ele desaparece novamente, arrastado pela corrente do tempo.
Quem sabe, se um outro dia se voltarão a cruzar, numa outra rotunda da vida.
