Pedro contém as lágrimas e a raiva enquanto amassa a carta de despedida de Jacinta. A esta hora já vai longe.
À mente vêm-lhe as imagens dos dois, ainda crianças, correndo descalços no pasto molhado de orvalho. E o cheiro. O cheiro e o som do rebanho.
Vêm-lhe à mente recordações de quando, ainda meninos, deram o seu primeiro beijo.
Revelam-se na sua mente instantâneos de quando se mudaram juntos para a nova casa.
Mas o sono é bom conselheiro.
Na manhã seguinte, decide abandonar a terra que o viu nascer, deixando para trás Jacinta, tal como ela o tinha deixado a ele. Era a única forma de se manter à tona.
Pedro, que não sabia nada do mar, muito menos nadar, emprega-se a bordo de um navio de carga, apenas 5 horas depois da sua chegada ao porto.
Durante 18 meses, corre o Mundo.
Tons de pele, credos, alfabetos, línguas e sabores diferentes a cada duas semanas.
Pedro conhece realidades diferentes, e gente genuinamente feliz apesar de passados verdadeiramente trágicos.
Pedro segue o seu rumo, atravessando oceanos, construindo mentalmente pontes entre os continentes. Pouco a pouco, nesses diferentes tons de pele, credos, alfabetos, línguas e sabores diferentes, ele descobre uma só humanidade.
Descobre o fio condutor da felicidade, o fio que liga todos aqueles que, apesar da tragédia, e independentemente do tom de pele, credo, alfabeto e língua, seguem caminho de sorriso nos lábios:
“Hoje foi mau, amanhã é outro dia. Resta a cada um de nós saber para onde aproar o barco – se na direcção da noite, ou na do nascer do sol. “
