quem diria

Dá dois passos atrás para admirar de longe o trabalho concluído. “Ficou fixe!” – pensa. “Acho que consegui mesmo concretizar a ideia que tinha na cabeça” – conclui.

Sobe as escadas para o quarto no andar de cima – em plano aberto – para poder observar o seu trabalho por outra perspectiva. Sorri e pensa que isto merecia uma rodada no ‘Lobo do Mar’.

Olha para o céu através da janela do telhado, e parece-lhe que as nuvens se estão finalmente a ir. O final de tarde vai estar límpido devido à chuva dos último dias. E solarengo! Suspira, inalando profundamente o cheiro da madeira e do óleo de linhaça que usa para selar a madeira. “Quem diria?” – pensa.

Sentindo-se eléctrica, dá um saltinho e desce as escadas com um sorriso infantil, apatetado.

Dá um último trago no chá, carrega a salamandra de lenha e pousa-lhe em cima a chaleira cheia de água.

Calça as botas, veste o blusão e põe a mochila às costas. Atravessa o atelier em direcção à porta da garagem.

Ao sair do ambiente aquecido, sente um arrepio. ” Está frio ” – murmura. “Tenho que ir mais agasalhada”, pensa.

Volta atrás para ir buscar um cachecol, e vestir mais uma camada térmica por baixo do blusão. É mais sensato.

De regresso à garagem, abre o portão, e procura nos bolsos a chave da mota. Encontra-a depois de revistar cada bolso 3 vezes… Ri-se sozinha.

Põe a mota a trabalhar em primeiro lugar, calça as luvas, empurra a mota para fora da garagem e pondo-a no descanso. Tem este ritual. A mota já é velhinha, leva o seu tempo a acordar. Quando se vira para fechar o portão, consegue vislumbrar através da parede de vidro da sala o rubor da salamandra. “Que abuso de lenha. Quando voltar, a casa vai estar um forno!” “Os hóspedes da casa grande estão orientados, posso voltar tarde” – pensa… “A noite vai ser fria, vai saber bem, e até lá dissipa-se algum calor!”

Uma sensação húmida e esponjosa na mão trá-la de volta ao presente. Choco, preto como a tinta do choco, vem saudá-la de cauda a abanar. Retribui a saudação afagando o cachaço do bicho “Então rapaz? Que queres tu cãozinho?” “Queres mimo?” diz com voz doce enquanto o cachorro se encosta às suas pernas, visivelmente satisfeito.

Dá uma última festa ao cão, tranca a porta da garagem, calça as luvas, monta e arranca.

São duzentos metros até à estrada, e enquanto sente os pneus rolando por cima da gravilha e se deixa envolver pelo cheiro do mato húmido, nem dá conta de que já está na saída da propriedade.

“Vai-se pôr um belo fim de tarde!” – volta a pensar, cada vez mais segura disso. “Fiz bem em ter saído de casa apesar do frio”.

Até ao ‘Lobo’ são apenas dez minutos e assim que entra na vila, são vários os “locais” que a saúdam. Retribui os comprimentos, curvando a cabeça em sinal de assentimento.

Faz dez anos que veio viver para cá. Dez anos que largou a estabilidade de um emprego bem pago, onde era valorizada pelos colegas e superiores, com perspectivas de crescimento. Faz dez anos que, mesmo adorando o seu trabalho, sentiu que havia mais vida além disso. Estava satisfeita, mas faltava-lhe tempo para si… Hoje, passados dez anos, é já uma “local” na sua nova casa.

“Olá”, diz ao entrar no ‘Lobo’. Dirige-se ao balcão, e senta-se ao lado do Manel das ânforas, a quem oferece uma cerveja, reparando que a sua está no fim. Começam a pôr a conversa em dia… Há 2 dias nasceu o primeiro neto de Manuel.

Nem quarto de hora depois de entrar por estas novidades a dentro, chega o Mestre Luís. Vem com as galochas calçadas, com o seu passo desengonçado, balançando em cada braço um balde com a “ferramenta”.

Ao dirigir-se para eles, vai cumprimentando os conhecidos sentados nas mesas que o separam do balcão.

“Eh pá!” – exclama Luís. “A maré está no ponto! O Mestre João já está no barco, vamos atravessar para o outro lado”.

Isto é lá proposta que se recuse?

Ferramenta para fora e enchem-se os baldes do Luís com cervejas! E cobrem tudo com gelo! Já não falta nada. Seguem para o cais. O Mestre Guilherme já tem o motor a trabalhar. Só estava mesmo à espera que o Luís apanhasse mais alguém pelo caminho.

Instalam-se a bordo e arrancam na direcção do sol posto. Cada um com sua cerveja na mão. Brindam ao final de tarde, a estes momentos.

Enquanto isso, o Sol transforma a ria em ouro líquido.

“É dia de semana, já foi produtivo, e ainda não acabou! Pensa na sua vida anterior… Quem diria!”

Não foi uma decisão fácil, mas não se arrepende de ter dado o salto. Afinal não era apenas um sonho.

“Quem diria?”

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