todos ao mato

Aníbal acorda cedo, é dia de passeio!

A Maria já anda a pé, a preparar-lhe a marmita.

Cheio de energia, levanta-se num salto e dá um jeito às costas. Apesar do espírito se sentir com meros 20 anos, há mais de 40 que não tem essa idade.

Sorri, feliz ao imaginar o dia que tem pela frente.

Hoje, Aníbal tira de baixo do telheiro a sua velhinha Zündapp, cor de laranja de origem, e em alguns cantos, cor de laranja da ferrugem, e junta-se a um grupo que vai dar um passeio no mato. É malta jovem na sua maioria, alguns senhores mais entradotes como ele, mas dos Raids, como lhes chamam agora…

Choveu muito no dia anterior, os caminhos devem estar cheios de lama. Nada fora do normal, para quem andou de motorizada a vida toda.

Põe-se a caminho, e sorri enquanto o vento frio da manhã de Janeiro lhe vai arranhando as bochechas.

Avista o grupo, e junta-se a ele mais à frente. Seguem juntos em busca de trilhos enlameados.

A juventude passa por ele a galope, nas suas motas de cross nervosas, galgando poças de água, cavando e projectando lama com os seus pneus cardados, saltando ribeiras.

Andam nisto a manhã toda.

Aníbal, que toda a vida só teve aquela motorizada como meio de locomoção próprio, sabe que a sua velhinha já não gosta de acelerações como antes, mas nunca o deixou ficar mal. 

Segue a ritmo lento, mas seguro, com um equilíbrio circense, evitando poças, mantendo a trajectória e velocidade constantes nos lameiros cavados das rodas da juventude, tirando o azimute à travessia menos profunda das ribeiras.

Depois de uma curva fechada e coberta pelo arvoredo, numa várzea, verde da erva recentemente nascida das chuvadas frias de inverno, aguarda a carrinha carregada de barris de plástico cheios de gelo e garrafas de sumo e água, e grades de minis! Muitas grades de minis para a juventude.

Param para comer.

Despachando minis, a juventude confronta egos, escalando subidas impossíveis nas suas motos, comparando depois as distancias alcançadas. Até de moto trocam uns com os outros!

Enquanto tudo isto se desenrola, Aníbal procura uma sombra tranquila para se sentar e admirar o espectáculo. Afinal, já teve aquela idade, e sabe bem a emoção que aquela desgarrada provoca nos intervenientes. “Oxalá ninguém se aleije”, pensa. Desvia o olhar da canalha para dentro do saco, tira o naco de presunto e o pão para fora, e saca da navalha.

Sorri, ao ver que a sua Maria, que conheceu há mais de 40 anos numa passeata como esta, não se esqueceu da thermos do café, nem da garrafinha do medronho.

Ana Brochado

Artigos relacionados

amizade improvável

num qualquer dia de verão, numa qualquer vila à beira da água, um pombo, de nome pintas, dorme uma sesta tranquila na sua casota alta,

sacrifício

O cão leva-me calçada abaixo pela trela. Sigo-o pacientemente, ao seu ritmo, parando com ele em cada poste eléctrico, cada esquina, cada árvore, deixando-o cheirar

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *